sábado, 30 de agosto de 2008

Abaixo a lógica!

Quero causas sem conseqüências;
Conseqüências sem porquês.
Quero um mais um igual a infinito;
Quero ir à farmácia pra comprar sorvete,
E tomar remédio para adoecer.
Quero antes sem depois;
Hoje sem amanhã.
Quero subir e não descer;
Vir sem ter ido;
Acordar sem dormir.
Quero a palavra ininteligível, incoerente,
Insana, inconseqüente ―
ILORADINACERDIRA.
Quero uma ação inerte;
Um sorriso de sofrimento;
Jogar para perder.
Estou farto da lógica, do lugar-comum.
Quero viver, perigosamente, à mercê do inusitado.

(Ênio César de Moraes) 

sábado, 26 de julho de 2008

Contra o tempo

A Marlon Pet

Olho para um lado,
Olho para o outro lado,
Estou ilhado.
As pessoas à minha volta, absortas,
Seguem seu caminho
E não percebem minha angústia.
Então, volto-me para mim mesmo
E busco respostas,
Porém, em vão o faço,
Minha mente está confusa,
Os números e as palavras misturam-se
O tempo, meu algoz, me açoita.
O que fazer?
Sinto-me vigiado.
E o futuro, este monstro assustador
Que me envolve em um círculo, vazio,
De repente se faz presente:
“— Tempo esgotado, hora de entregar a prova!”

(Ênio César de Moraes) 

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Literariamente

Às vezes, sou barroco: sinto-me torturado pelo desejo de comer a maçã,
Pelo medo de prestar contas ao Dono do pomar,
Pela efemeridade da vida;
Às vezes, sou árcade: alimento a utopia de uma vida simples e calma,
Longe da “azáfama sacrílega” da cidade grande,
Apesar de me deleitar com tudo que esta me proporciona;
Às vezes, sou romântico: às vezes, vejo a vida com os óculos da idealização
E, como num passe de mágica, até o que é triste fica bonito
— “Até os urubus são belos, no largo círculo dos dias sossegados”;
Mas, na maior parte do tempo, sou realista:
Não fecho os olhos às mazelas humanas;
Também sou naturalista, afinal, “em terra de sapos, de cócoras com eles”;
Às vezes, sou parnasiano: amo o belo e sou, rigorosamente, formal;
Às vezes, sou simbolista: não raro, viajo pelos recônditos da minh’alma;
Às vezes, sou moderno: aborrecido com a mesmice, busco o inusitado.
Em outras palavras, quase sempre, sou humano.

(Ênio César de Moraes) 

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Em um segundo

Num átimo de insanidade
Com torpor e sofreguidão
Um olhar voluptuoso e ingênuo,
Impregnado de ternura e devoção.
Estamos sós, temos o mundo em nossas mãos.
Apaixonadamente, transcendemos,
Sorvemos a seiva da vida
Como quem tudo vê pela primeira (ou última) vez.
Sem máscaras, ousamos ser quem realmente somos
E nos perdemos na infinitude de um segundo,
Instante em que perigosamente
Experimentamos a felicidade plena.

(Ênio César de Moraes) 

domingo, 27 de abril de 2008

Mãe

De Deus, a mais linda critaura;
Do amor, a eterna jura;
De todo mal, a cura;
O bem que sempre perdura.

(Ênio César de Moraes) 

domingo, 23 de março de 2008

Meu silêncio

Quero te envolver no meu silêncio
Me perder no teu silêncio
Que minha boca silencia.
Mergulho no silêncio da noite
Viajo nas asas da fantasia
Ouço a voz do teu silêncio
Que me cala, que me fala de ti.
Cala-te, não digas nada!
Ouve-me apenas.
Se me calo, não te perturbes - sou assim!
Aprende a ouvir meu silêncio
E saberás muito mais de mim.
Mais de mil palavras...
Meu silêncio fala mais
(Pode o silêncio falar?)
Não respondas!
Pensa!
Cala-te!
Tanta coisa a dizer...
Pra que dizer?
Tudo já foi dito.
Para o bom entendedor
O silêncio basta!
E para quem ama não é preciso falar...
Basta um olhar no silêncio...
Cala-te, não digas mais nada, ouve-me apenas!

(Ênio César de Moraes) 

sábado, 1 de março de 2008

A aventura de viver

Quanto vale uma vida?
Depende do mercado, do valor do dólar, do preço do petróleo,
Da marca do carro, da opinião e do humor do comprador
E, especialmente, da estação do ano.
Sim, da estação do ano!
Na primavera, a vida é mais cara:
Sonhos brotam, outros florescem,
Os dias se enchem de esplendor;
No verão, o comércio se agita,
Recrudesce a ousadia,
O tempo murmura “carpe diem”
Como se o fim estivesse sempre próximo;
No outono, os ânimos arrefecem,
Idéias amadurecem, ilusões perecem
E a vida recupera seu valor;
Já no inverno, a vida se torna mais rara,
O tempo, a maior riqueza que se almeja,
É moeda de troca, assim como a experiência.
Mas, hoje, na feira livre da vida, não importa quando,
Perambulamos conformados e
Estampamos no rosto, com as tintas do medo e da impotência,
Os dizeres: vida à venda.

(Ênio César de Moraes)