quarta-feira, 28 de maio de 2008

Em um segundo

Num átimo de insanidade
Com torpor e sofreguidão
Um olhar voluptuoso e ingênuo,
Impregnado de ternura e devoção.
Estamos sós, temos o mundo em nossas mãos.
Apaixonadamente, transcendemos,
Sorvemos a seiva da vida
Como quem tudo vê pela primeira (ou última) vez.
Sem máscaras, ousamos ser quem realmente somos
E nos perdemos na infinitude de um segundo,
Instante em que perigosamente
Experimentamos a felicidade plena.

(Ênio César de Moraes) 

domingo, 27 de abril de 2008

Mãe

De Deus, a mais linda critaura;
Do amor, a eterna jura;
De todo mal, a cura;
O bem que sempre perdura.

(Ênio César de Moraes) 

domingo, 23 de março de 2008

Meu silêncio

Quero te envolver no meu silêncio
Me perder no teu silêncio
Que minha boca silencia.
Mergulho no silêncio da noite
Viajo nas asas da fantasia
Ouço a voz do teu silêncio
Que me cala, que me fala de ti.
Cala-te, não digas nada!
Ouve-me apenas.
Se me calo, não te perturbes - sou assim!
Aprende a ouvir meu silêncio
E saberás muito mais de mim.
Mais de mil palavras...
Meu silêncio fala mais
(Pode o silêncio falar?)
Não respondas!
Pensa!
Cala-te!
Tanta coisa a dizer...
Pra que dizer?
Tudo já foi dito.
Para o bom entendedor
O silêncio basta!
E para quem ama não é preciso falar...
Basta um olhar no silêncio...
Cala-te, não digas mais nada, ouve-me apenas!

(Ênio César de Moraes) 

sábado, 1 de março de 2008

A aventura de viver

Quanto vale uma vida?
Depende do mercado, do valor do dólar, do preço do petróleo,
Da marca do carro, da opinião e do humor do comprador
E, especialmente, da estação do ano.
Sim, da estação do ano!
Na primavera, a vida é mais cara:
Sonhos brotam, outros florescem,
Os dias se enchem de esplendor;
No verão, o comércio se agita,
Recrudesce a ousadia,
O tempo murmura “carpe diem”
Como se o fim estivesse sempre próximo;
No outono, os ânimos arrefecem,
Idéias amadurecem, ilusões perecem
E a vida recupera seu valor;
Já no inverno, a vida se torna mais rara,
O tempo, a maior riqueza que se almeja,
É moeda de troca, assim como a experiência.
Mas, hoje, na feira livre da vida, não importa quando,
Perambulamos conformados e
Estampamos no rosto, com as tintas do medo e da impotência,
Os dizeres: vida à venda.

(Ênio César de Moraes) 

sábado, 26 de janeiro de 2008

Natureza morta

O mar, indócil, agonizante,
expurga de si os corpos estranhos,
regurgitando na areia o fel
que a natureza torta lhe impõe.
Na água, as pegadas humanas:
óleo, esgoto, latas, garrafas
e outras tantas marcas indeléveis
de uma irracioburrignoratrocimbecilidade
autodestrutiva.
“Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!”

(Ênio César de Moraes) 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Feliz Natal!

Emocionava-se facilmente, mas ficava especialmente tocada pelo Dia das Mães e pelo Natal. Não via um gesto mais belo do que alguém doar sua vida a outrem — quanto mais a toda a humanidade! Sentia-se privilegiada por ter, entre seus seis filhos, um que nasceu exatamente em uma noite de Natal, quando era esperado para o mês de fevereiro do ano seguinte.
Naquele ano, porém, o Natal fez(-se) mais sentido do que outrora. Afinal, naquele mês, fora a própria Maria, experimentara, pela primeira vez, o sabor amargo da perda de um filho. Gerar uma vida, lutar bravamente por ela e, por fim, perdê-la tristemente... Será que Jesus, ao morrer, sentiu essa mesma sensação? Talvez, mas certamente tinha a certeza de que deixava para o mundo a maior lição de amor que pode existir, o maior gesto de doação, que se traduz em esperança e, de certa forma, se reproduz particularmente na maternidade.
É. A partir daquele ano, ela percebeu que a nostalgia do falecimento é mais forte do que a beleza do nascimento, pois, inevitavelmente, esta é ceifada por aquela. Confirmou também algo, óbvio, que já se anunciava em relação aos laços afetivos: a dor da ausência é proporcional ao amor vivenciado. Mas com essa professora arbitrária — a “indesejada das gentes” —, aprendeu pragmaticamente que existe uma forma de amenizar o sofrimento inexorável da partida: fazer a diferença em cada dia de sua existência, de modo que a vida não seja em vão. Assim, surgirá um novo sentimento — de realização —, que sobrepujará o vazio do não ser mais visto.
Com o duro golpe, humana que é, agiu instintivamente e, em uma postura de autodefesa e amor próprio, varreu para o quarto de despejo da memória a fatídica lembrança, consciente de que esta jamais se apagará e voltará à tona sempre que a marca deixada se fizer notar. Paradoxalmente, as desilusões são cicatrizes que nos machucam, ao mesmo tempo que nos tornam mais fortes e mais humanos.
E, a cada dezembro, com a maturidade que os anos trazem, encara com firmeza aquele aleijão, renasce — qual a fênix que ressurge das cinzas —, e seu “feliz Natal!”, para cada filho, tem força e sentido especiais, ao conter o significado essencial do que a data representa, como se dissesse, com uma paixão além do normal, “obrigada por você existir”. Então, mãe, feliz Natal!

(Ênio César de Moraes) 

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Questão de jeito

Dez minutos já se haviam passado e nada: o parafuso não entrava. E o pior é que era sábado e ele havia planejado sair do trabalho às quatro para encontrar-se com uma garota a quem conhecera no dia anterior. Já eram seis e quarenta e cinco, o sol já se rendera à força da noite, que prometia, dada a sua formosura. E nada de o bicho entrar.
O cliente estava inquieto, pois a loja havia marcado a entrega do carro para as quatro horas, horário normal de fechamento — quando nenhum parafuso emperra.
De pensar que, há dez minutos, respirava aliviado, afinal, depois de tanto serviço, sob pressão, bastava parafusar a peça e pronto, estaria livre. Mas, no exato momento de fechar com chave de ouro (isto é, de fenda) seu trabalho, surpresa... Tinha uma pedra no meio do caminho! Como podia uma peça tão insignificante causar tamanho aborrecimento?
O proprietário do carro, uma pessoa sensível, que não gostava de incomodar, compartilhava, silencioso, o seu drama, vendo-o suar (de cansaço ou de raiva), e torcia para que o embate se desse logo por encerrado. “Agora vai”, pensava ele, mas o maldito parafuso não ia. E ele meio que “consolanimava” seu quase amigo com um “Tá de rosca, hein!”. Ao que o jovem rapaz, descrente, respondia com um sorriso amarelo.
“Se não entrar agora, o jeito vai ser desmontar tudo e remontar”, afirmou categoricamente enquanto lubrificava o danado. A fala contundente do profissional estremeceu a todos, afinal era inimaginável, depois de toda a mão-de-obra, àquela hora, recomeçar o serviço. A expectativa aumentou dramaticamente, e os espectadores que acompanhavam a pendenga — os mecânicos solidários, o dono da loja e o inoportuno cliente — fizeram uma espécie de corrente. Parecia pênalti decisivo em final de campeonato.
E lá foi ele. Enrosca um pouquinho e mais um pouquinho e... entrou! A alegria foi geral, era inacreditável, por sorte ou pelo jeito, o parafuso cedeu e encaixou direitinho no seu lugar. A última peça estava fixada, e todos poderiam voltar descansados para suas casas. Alguém mais atento e menos emocionado conseguiria até enxergar uma discreta lágrima que insistia em rolar no rosto daquele trabalhador, que chegara a fazer promessa para que aquele teimoso tarugo obedecesse ao seu comando.
Tudo pronto. Conta acertada, gorjeta generosa dada, agradecimentos... Todos, felizes, deixaram a loja. Nosso amigo, o mecânico, conseguiu mais uma vitória ao, após uma hora e meia de desculpas e explicações, convencer sua pretendente a sair com ele, e a noite foi realmente muito proveitosa.
Ele só não esperava é, na segunda-feira, bem cedo, encontrar na loja aquele automóvel que lhe trouxera tanto problema e que, talvez por isso, foi avistado de longe. “Será que algo deu errado?”, perguntava-se ele. Foi uma grande surpresa ouvir, por ironia do destino (e pela opinião de um dos filhos do homem), que o acessório ficaria mais bonito sem aquela última peça.
Nosso herói não se deixou abater, pois, naquele duelo, já ficara comprovado quem comandava. Solicitamente orientou que o carro fosse colocado no elevador e sentiu-se à vontade para dizer: “Eu também acho que fica bem melhor sem, mas não quis dizer nada para que o senhor não pensasse que era por incompetência minha”. E, decidido, pegou aquela mesma chave de fenda e pôs-se a destorcer o parafuso. Uma volta, duas voltas e... — adivinha! — o dito-cujo quebrou.

(Ênio César de Moraes)